Reflexões Sôbre o Vaticano, os Judeus, e a America Latina Durante a II Guerra Mundial AVRAHAM MILGRAM Yad Vashem - Jerusalem A atitute do Vaticano e do Papa Pio XII com respeito aos judeus durante a Segunda Grande Guerra foi objeto de uma vasta polêmica historiográfica iniciada por ocasiaõ da publicaçao da obra de Rolf Hochhuth O Vigario.{note id=1} Acusado e criticado, o Vaticano decidiu publicar sua coleçaõ de documentos diplomaticos relativo aos anos 1939 a 1944, o que normalmente seria feito após 75 anos da sua emissaõ. As circunstancias coagiram o Vaticano a reabilitar sua imagem e provar, através de sua documentação, o quanto foi feito em pról das vítimas.{note id=2} Historiadores, servindo-se da correspondencia do Vaticano, chegaram a conclusoés divergentes quanto ao papel do Papa e de seus representantes durante a guerra.{note id=3} A pesquisa histórica ao focalizar intensamente o silencio do Papa e a neutralidade do Vaticano durante o Holocausto, relegou a segundo plano e até ignorou assuntos importantes como o potencial de salvaçaõ oferecido pelos países latinoamericanos. A America Latina - distante da guerra, profundamente católica, neutra a princípio e pró países aliados poster- iormente - oferecia vantagens reais a um Estado como o Vaticano cuja preocupaçaõ pelo destino das vítimas do racismo era essencial a sua razaõ de ser. Este trabalho se propoé a demonstrar a natureza desta preocupaçaõ. Em que medida o potencial acima mencionado era real ou ilusório, o que o Vaticano fez e deixou de fazer em pról das vítimas, e finalmente, que conclusoés novas podemos acrescentar a historiografia do Vaticano daquêle período. Estas questoés serão analisadas ao focalisarmos quatro aspectos que dizem respeito ao Vaticano e a salvaçaõ de judeus através dos países latinoamericanos. Pela ordem que segue nêste trabalho: (1) a questão dos 3000 vistos brasileiros destinados a judeus batisados da Alemanha (2) o projeto de imigração de religiosos alemaés para a America Latina (3) o Vaticano e as lideranças judaicas da America do Sul -imagem e realidade (4) os esforc os em pról dos judeus detidos no campo de concentração de Vitel, no nordest,~ da França. A questaõ dos 3000 vistos brasileiros A famigerada `Noite dos Cristais` ocorrida entre 9 e 10 de novembro de 1938 foi o estímulo que impeliu a autoridade papal a tomar uma atitude em favor das vítimas do nazismo.{note id=4} O Vaticano só se preocupou pelos judeus batisados, os quais, considerados membros efetivos da Igreja católica necessitavam urgentemente abandonar o Reich alema:ó.{note id=5} Em 31 de março de 1939, dois importantes líderes do catolicismo alemáo, o Arcebispo de Munich Faulhaber e o bispo de Osnabruck Berning, apelaram ao recem eleito Papa Pio XII solicitando-lhe que obtivesse do presidente do Brasil uma concessaõ especial de 3000 vistos destinados a católicos nao arianos da Alemanha{note id=6}. Apesar que o Conselho de Imigraçáo e Colonizaçáõ{note id=7} opos-se a receber esta gente, o presidente Getulio Vargas e Oswaldo Aranha decidiram nab contrariar a vontade do Papa.{note id=8} O deferimento acima, o qual serviu de catalisador aos esforços diplomáticos do 'Jaticano, suscitou tamanho otimismo no sucesso da causa que nada alem foi feito no ámbito dos países latinoamericanos afim de aumentar o seu marketing de auxilio. Sómente a Sociedade Sao Raphael, os patronos da causa na Alemanha, haviam percebido a necessidade de buscar outra alternativa no caso do Brasil decepcionar.{note id=9} O Vaticano, ingenuamente, gastou toda sua munição diplomática na alternativa brasileira.{note id=10} Porém nao tardou muito até o govêrno brasileiro expor as primeiras dificuldades de uma longa série visando a negaçaõ dos vistos especiais. Primeiramente exigiram dos batisados que viessem providos de uma quantia de dinheiro a qual eles obviamente nao possuíam pois haviam sido viti.nados pela política de ariamzaçao do regime nazista{note id=11}; mais tarde opuseram-se a aceitar famílias mixtas nas quais um dos cônjugues era judeu.{note id=12} Ao chegarem os primeiros imigrantes no Brasil surgiu a suspeita quanto a origem legal dos seus certificados de batismo e assim por diante.{note id=13} Mas naõ só o Brasil fazia problemas em aceitar judeus, batisados ou nao. O ambiente hostil a esta gente nos países latinoamericanos era mais complexo do que poderia parecer a primeira vista e a correspondencia do Vaticano refletiu problematica. Em junho de 1939 o nuncio Bernardini de Berna inforinou a Maglione, secretario de Estado do Vaticano, das dificuldades em obter vistos latinoamericanos para refugiados católicos de origem judaica, solicitando-lhe portanto que interviesse junto aos govêrnos dêstes países.{note id=14} O encarregado de assuntos ,apostólicos em La Paz, Taffi, sem esconder seu desdém particular pela imigração judaic,--a a Bolívia, discorreu sôbre os problemas e esc?ndalos públicos a que estavam envolvidos nesta imigração altos funcionarios do govêrno, o ministro do exterior e diversos consules. Taffi, que nao discriminou judeus de judeus bati sados, concluiu que, devido a publicidade e a grande penetração do elemento judaico na Bolívia, seria prudente esperar por outra ocasião afim de auxiliar os católicos de origem judaica.{note id=15} O nuncio Laghi de Santiago descreveu a Maglione uma situaçab muito semelhante aquela descrita por Taffi de La Paz. Fazendo eco a argumentos antisemitas locais deu a entender que a época era desfavorável a vinda de mais pessoas desta origem.{note id=16} O govêrno da Venezuela por sua vez dispunha-se a aceitar refugiados nao arianos desde que pertencessem a categoria de agricultores ou artífices.{note id=17} Se estas atitudes refletiam crises e antisemitismo vigentes nos países latinoamericanos, nab é de surpreender portanto, a falta de respostas ao apelo do Vaticano (de janeiro de 1939) em pról dos judeus convertidos. O período de 1939-1940 configurava-se portanto pelo silêncio da maioria dos nuncios apostólicos, pela atitude hostil dos nuncios de La Paz e de Santiago, pelos esforços diplomáticos do Vaticano em prol dos 3000 judeus batisados, pela oposição que ia e crescia contra os nao arianos no Brasil e. pela objeçáo, na maioria dos países latinoamericanos, a toda imigração que nao se destinasse a lavoura ou a indústria. Nos últimos meses de 1940, a probabilidade que fossem concedidos vistos aos católicos nao arianos mostrava-se mais remota do que nunca. Em Berlim, o embaixador Ciro de Freitas Vale, antisemita convicto, opunha-se categóricamente a qualquer concessao{note id=18} causando na liderança católica alerria um mal estar de fracasso e frustrúção. A preocupaçaõ de alguns líderes católicos nao era taõ só pelas vidas humanas em questão como pelo bom nome católico e pelo prestígio dos bispos alem?es e o da Santa Sé. Eles tinham plena consciencia de que as organizaçdés judaicas obtinham vistos para os refugiados judeus coisa que o Vaticano nao realizava obter para seus batisados.19 Em dezembro de 1940, líderes católicos da Alemanha sugeriram a Maglione que solicitasse vistos a outros países da America Latina para sair do impasse criado.{note id=20} A resposta, a qual consta das notas da secretaria de Estado do Vaticano, dizia "nao ser oportuno solicitar aos países latinoamericanos vistos a católicos nao arianos pois tal passo estaria fadado ao insucesso".{note id=21} Esta opiniaõ aceita por Maglione demonstra portanto que (1) a decisaõ de não tentar obter vistos em outros países foi moti,,ada por considerações de raison d'c ai e diplomacia internacional desconsiderando totalmente os aspectos morais, religiosos e humanitários da questaõ. (2) A imagem que o Vaticano t.úha de si r~fl; tia impotencia, frustraçao e ressentimento pelos resultados qu:,se malos em países constiti:idos por maior, de católicos. Nas notas da secretaria acima mencionadas constam as seguintes informaçoés: a) "com grande dificuldade que os representantes da Santa Sé na America Central e Meridional obtiveram alguns vistos em casos especiais" b) ao nuncio da Guatemala e de Sab Salvador foi dito "que nao era possível fazer exeçaõ as leis vigentes relativas a imigraçab de nab arianos..." c) em outras republicas (Bolívia e Chile) foi suspensa toda imigração aos nao arianos".{note id=22} (3) O Vaticano recebeu passivamente o veredito dos países que rejeitaram refugiados com atestados de batismo na America Latina. O Vaticano podia haver contestado apelando a sua prerrogativa de Estado que pretendia defender seus protegidos ou acionando a autoridade Papal num assunto que dizia respeito aos princípios universais da igreja. O Vaticano abdicou tanto de uma como de outra de suas prerrogativas. Sómente 1000 vistos foram liberados do total da cota especial concedida pelo govêrno brasileiro ao Papa. Trata-se dos vistos que estavam em poder do embaixador Hildebrando Accioly em Roma. Os 2000 restantes foram congelados pelo embaixador em Berlim. A autoridade do Papa e os esforços diplomáticos do Vaticano nao foram suficientes para salvar 2000 judeus batisados da Alemanha. O projeto de imigraçaõ de religiosos alemaés para a America Latina As agressoés e violencias cometidas na Alemanha, nos primeiros anos da guerra, contra o clero católico e suas instituiçoés religiosas sociais e culturais demonstraram a fragilidade e a ineficácia da política de neutralidade do Papa Pio XII. Maglione relatou detalhadamente a vários nuncios, entre os quais da Argentina e Brasil, sôbre os desastrosos efeitos físicos e espirituais causados pelo paganismo anti-cristaõ nazista.{note id=23} Em consequencia destas ocorrencias a estrutura social e economica da qual dependiam dezenas e centenas de membros da igreja católica na Alemanha desarticulou-se. O arcebispo Grober de Fribourg escreveu ao Papa a respeito acrescentando que muitos dêles encontravam-se na iminencia de abandonar a ética cristã em busca de soluçoés existenciais fora do ?mbito eclesiastico. Segundo Grober, a soluçab era fazê-los imigrar a países católicos como Espanha, Portugal e os da America Latina.{note id=24} A saída dêstes religiosos, segundo o autor do apelo, seria coroada de sucesso se êstes países solicitassem a vinda dêles pois a Alemanha nao permitia que abandonassem o território alemaõ. O cenário dêste capítulo assemelhava-se ao do anterior com a diferença fundamental que êstes religiosos nab se encontravam numa situação de vida ou morte como os judeus alemaés que nos últimos mêses de 1941 começaram a ser deportados a regióes da Europa Oriental. A situação obrigava a uma defesa dos interêsses legítimos da igreja católica alemã e de seus adeptos, atitude que o Vaticano nao tomou em momento algum durante a guerra nem mesmo para defender a Igreja e o clero católico na Polonia das tremendas violaçoés cometidas pelos nazistas. A iniciativa de ajudar os religiosos católicos e os judeus convertidos da Alemanha veio da parte do clero alemaõ que acreditava no prestígio do Vaticano e em sua capacidade diplomática para concretizar soluçoés propícias. Este affair que iniciou-se nos últimos mêses do ano 1941 teve curta duração. A entrada dos Estados Unidos na guerra nao só modificou o quadro das relaçoés diplomáticas entre os países latinoamericanos e as potencias, como diminuiu respeit?velmente o potencial de auxílio aos católicos da Alemanha. Semelhante a peças de dominó, a maioria dos países latinoamericanos alinharam-se em favor dos EUA cortando suas relaçoés diplomáticas com a Alemanha. As respostas negativas transmitidas pelos nuncios da Venezuela{note id=25}, Peru{note id=26} e demais países latinoamericanos -aos apelos de ajuda de Maglione- refletiram os limites de açaõ do Vaticano e a "disfunçaõ" de imigrantes movidos por razoés religiosas, políticas ou raciais, judeus ou nab, em países cuja política interna era concebida como baluartes intransponíveis mesmo a potencias espirituais ou militares.{note id=27} O Vaticano e as lideranças judaicas da America do Sul Nos mêses junho-julho de 194? o movimento clandestino polonês e representantes de organizaçoes judaicas da Suiça transmitiram ao mundo livre informaçoés precisas sôbre o processo de assassinato em massa de judeus na Polonia e nos territórios da Uniaõ Sovietica{note id=28}, fatos que passaram a ser conhecidos nos países aliados. Na cidade do Vaticano o embaixador brasileiro Hildebrando Accioly tomou a iniciativa de pressionar o Papa a tomar uma atitude em favor das vítimas conforme consta do telegrama enviado pelo representante americano junto da Santa Sé ao Departamento de Estado: "Ontem o embaixador do Brasil junto da Santa Sé veio ter comigo para perguntar se eu estaria disposto a juntar-me a uma diligencia combinada (nao coletiva, mas simultanea) para persuadir o Papa a condenar públicamente e em têrmos específicos as atrocidades nazistas nas regioés ocupadas pelos alemaés. O Senhor Accioly disse-me que já tinha recebido as instruçoés necessárias do seu govêrno para tomar parte em tal diligencia e que tentava obter a cooperaçaõ dos representantes da Grã-Bretanha, da Polonia, da Bélgica, da Yugoslavia e de tantos países sul americanos quanto possível".{note id=29} No telegrama de 6 de outubro de 1942 o Departamento de Estado era informado que outros países da América Latina se juntaram a iniciativa do embaixador brasileiro, porém nao havia unanimidade no Vaticano quanto a sensatez da diligencia do embaixador do Brasil, ou seja, a Santa Sé ainda estava convencida que urna denuncia aberta seria contra producente.{note id=30} O silencio do Papa, na época em que os refugiados judeus da França nao ocupada eram deportados, coagiu o nuncio Valeri da França a justificar esta atitute aos diplomatas sul americanos: "I have not even neglected at various times to make it known, especially to South American diplomats, that it is not. true that the Holy See is enveloped in silence in the face of such inhuman persecution because many times the Holy Father has made the clearest allusion to condemn it, while on the other hand, the danger of new rigors and an extension of the draconian regulations to other parts of Europe, as, for example, Italy and Hungary, can induce him to prudent delay and enlightened reserve".{note id=31} O envolvimento dos diplomatas sul americanos coni o que ocorria nos territórios conquistados fica confirmado pela documentaçaõ acima. Resta portanto investigar que delegaçoés diplomaticas estavam envolvidas, a que nível de envolvimento chegaram, o que foi transmitido a seus ministérios, e em que medida a consciencia dos fatos influenciou ou não --estas representaçoés e seus govêrnos- na maneira de encarar a questaõ judaica. A idéia, segundo a qual, uma atitude crítica é severa por parte do Papa era necessária para aliviar a situação das vítimas ou influenciar nos eventos era comum tanto a di,plomaticos como Hildebrando Accioly como a diversas lideranças comunitárias judaicas da America Latina. No mês de dezembro de 1942, quando os planos e os fatos sôbre o extermínio do povo judeu tornaram-se publicos{note id=32} vários telegramas solicitando a intervenção do Papa em favor do judaismo Europeu foram enviados pélas comunidades judaicas da Costa Rica, Bogotá, La Paz, Potosi, Manágua e México.{note id=33} A resposta que encontramos nas notas da Secretaria de Estado encarregava os delegados apostólicos a responderem oralmente que "a Santa Sé faz aquilo que pode..."{note id=34} Este tipe de postura que nos parece cín ca r primeira vista é um exemplo do que veio a fornecer razoés a. polêmic& originada no pós guerra quanto ao papel do Vaticano. Os críticos do Vaticano alegaram que a Santa Sé poderia ter feito mais do que fez enquanto que os defensores alegaram que nas circunstancias criadas por uma guerra total, sem escrúpulos morais qualquer atitude advinda do Papa seria na melhor das hipóteses ignorada.{note id=35} Quando o exército alemaõ invadiu a Itália sitiando a cidade do Vaticano em 1943, certas lideranças judaicas da América do Sul virarei- se na obrigaçaõ de expressar palavras de simpatia e adesa? em consideraçaõ ao que estas lideranças acreditavam ter o Papa feito em pró] dos judeus. Uma breve citaça:o destas cartas será suficiente para demonstrar a que nível de alienaçaõ. desconhecimento de causa e incapacidade de avaliaçaõ da realidade chegaram êstes líderes; Samuel Goren, presidente do Comitê Representativo da Coletividade Israelita do Chile, transmitiu ao nuncio o seguinte texto publicado no El Diario Ilustrado de 3 de outubro: "...En estos trágicos días. nuestra mente evoca la elevada figura del Sumo Pontífice, Su Santidad Pío XII. probado defensor de la causa de los perseguidos y- en especial de millones de hermanos europeos nuestros que son víctimas inocentes de inhumanas masacres y crueles vejámenes...."{note id=36} As vêzes bastavam simples boatos acerca de intervenções favoráveis da igreja católica e do Papa em favor dos judeus franceses{note id=37} para que causassen-, demonstraç&s de agradecimentos de parte de lideres comunitários, verdadeiros disparates, como a do Chile, alimentando erroneamente imagens que aludiam ao Papa feitos jamais realizados.{note id=38} A carta assinada por Elias Seroussi, presidente do Comitê Central Isarelita do Uruguay, e pelo secretario Roman Grutfreid, se bem que mais moderada do que a anterior. expressa a mesma imagem desvirtuada de Pio XII como defensor da causa dos judeus perseguidos: "...A Coletividade que representamos tem acompanhado sempre com a maior indignação a notícia, mais ou menos digna de fé, sôbre a situaçaõ do Vaticano e da augusta pessoa de Sua Santidade, quando a guerra aproximou-se dos confins do Estado Pontificio; e do íntimo do coração os israelitas do Uraguay pedem chegar logo a notícia que assegure o fim do perigo que ameaça Sua Santidade Pio XII. ardente defensor da causa daquêles que saro perseguidos injustamente, os quais, com a sua altíssima influencia, tem ajudado _^.guitas vêzes os nossos infelizes irmãos da Europa".{note id=39} E por último a carta de Salomon Graitzer, presidente do Círculo Israelita de La Paz transmitida ao nuncio: "Por la presente nos cumple manisfestarle el profundo y más sincero agradecimiento de todos nuestros connacionales radi- cados en Bolívia por la generosa contribución de Su Santidad Pío XII y damas de la nobleza italiana para el rescate de nuestros hermanos italianos, capturados por los nazis como rehenes. Quedaríamos sumamente agradecidos a Su Excelencia por transmitir este nuestro agradecimiento al Sumo Pontífice y a todas las autoridades católicas por el generoso gesto que han tenido en bien de un grupo de nuestro martirizado pueblo".{note id=40} Impressionante a contradição entre a imagem criada pelas lideranças judaicas a respeito de um Papa humanitário, militante e defensor dos judeus em contraposiçaõ a realidade personificada na figura impotente de Pio XII que nada fez para salvar judeus e pouco sucesso teve nó auxílio a seus adeptos cristabs de origem judaica ou sequer cristaos. O Prof. Haim Avni, num estudo pioneiro, sublinhou uma série de questões a serem investigadas quanto a liderança judaica durante o Holocausto.{note id=41} Seria mister investigar, também, o confronto destas lideranças com a realidade do extermínio judeu. Quem, quando e o que foi informado? O que foi compreendido? Qual foi o sentido das suas reaçoés? O Vaticano e os esforços em pról dos judeus de Vittel Em 1943, os alemaés decidiram concentrar judeus polonêses beneficiados de papéis consulares latinoamericanos em campos especiais a fim de serem trocados por cidadãos alemaés confinados em países aliados e neutros.{note id=42} Trocas de prisioneiros haviam sido feitas entre a Alemanha e a Grã Bretanha em 1943 e 1944 envolvendo inclusive algumas centenas de judeus no total dos prisioneiros trocados.{note id=43} A denúncia da emissão ilegal de centenas de passaportes sul americanos, além de causar a demissão de consules de carreira{note id=44} e enfraquecer drásticamente êste meio de salvaçáo, levou os alemaés a duvidarem da credibilidade e reconhecimento dêstes documentos, o que consequentemente significaria um veredito de morte a seus beneficiários. Os alemaés estariam dispostos a participar desta farsa desde que houvessem margens reais a possíveis negociaçoés de troca. Em contraposiçaõ, a diminuiçaõ do valor artificial atribuido aos untermensch, no caso dos documentos serem anulados, ocasionaria a morte certa de seus portadores. Os países latinoamericanos em guerra contra, a Alemanha, mantinham algumas centenas de cidada?s alemãs detidos fato que valorizou o sentido e o propósito da troca{note id=45} pelo menos na teoria, pois restava saber se estes países também estavam dispostos a efetuar a troca e aceitar indivíduos, os quais, ilegalmente, tornaram-se cidadaõs dêstes países. O receio transformou-se em ameaça, quando os alemãs se deram conta que países como o Paraguai deixaram de reconhecer tais passaportes. Sómente a intervençaõ de organizaçoës judaicas junto aos govêrnos aliados e ao Vaticano foi capaz de reverter a situação. Conforme já vimos em outras circunstancias, o Vaticano continuava a gozar da reputacaõ de poder influir nos países dos quais dependia a sorte de centenas de prisioneiros "latinoamericanos".{note id=46} Estes países, ao responderem ao apelo do Vaticano, ofereceram renovadas perspectivas aos esforços de salvaçaõ, pois o Paraguai, Chile, Bolívia, Nicaragua e Costa Rica responderam que reconheceriam os passaportes emitidos. Em contraposição, o Brasil e o Uruguay ao responderem evasivamente estariam na prática adotando a mesma atitude negativa que tiveram países como Peru, Cuba, Guatemala e Salvador.{note id=47} Prov?velmente a atitude positiva de certos países latinoamericanos se deve mais as açoës diplomáticas das potencias aliadas do que a influencia do Vaticano.{note id=48} Porém, quando as negociaçoés visando efetivar a troca dos prisioneiros chegou a seu auge em abril de 1944 os alemaés decidiram pela deportação dos judeus de Vittel para Auschwitz. Em 18 de abril de 1944 saiu o primeiro transporte com 163 judeus portadores de passaportes latinoamer- icanos com direçaõ a Drancy e de lá em 29 de abril com destino a Auschwitz. Um segundo transporte saiu de Vittel no mês de maio com idêntico destino. A investigação acadêmica, até hoje, nao foi capaz de responder que motivos teriam levado os alemãs a desistirem de efetuar o intercambio uma vez que os documentos latinoamericanos foram oficialmente reconhecidos. O envolvimento diplomatico do Vaticano nêste affair foi em grande parte produto da atividade militante e solidaria do nuncio Philippo Bernardini em Berna o qual insistiu veementemente com Maglione e com os govêrnos da Suíça e Espanha (representantes dos países latinoamericanos junto a Alemanha) em prol dos detidos em Vittel.{note id=49} O papel do Vaticano foi secundario nao só por nao ter tratado diretamente com as instancias nazistas, mas devido a que os membros da secretaria de Estado do Vaticano desacreditavam a priori de qualquer sucesso. As notas da secretaria de Estado do mês de abril de 1944 demonstram cabalmente a mentalidade derrotista de seus membros a ponto de concientemente evitarem reiterar esforços ou iniciativas tomada por outros. Nas notas acima encontramos frases representativas dêste modo de agir: "Nao creio que seja útil nem oportuno participar a Nunciatura de Berlim: nao se obterá nada e talvez agravar-se-á a posicáo dos tais judeus de Vittel e também a mui delicada posição do mons. nuncio..." "Nao me parece oportuno novamente interessar as nunciaturas sul- americanas: já foi feito suficiente no propósito"{note id=50} Eventualmente os membros da secretaria de estado tinham razoes para pensar desta forma pois seus esforços em pról das vítimas revelaram seus limites e deficiencias desde o início da guerra. Suas açoés tiveram parcial sucesso no que tange a cota especial dos 3000 convertidos e nenhum resultado na ajuda aos cristãos alemães e aos judeus detidos no campo de concentraçaõ de Vittel. A crítica ao Vaticano durante a guerra nao se deve ao fracasso nestas açoés humanitárias. Conforme foi descrito nêste trabalho as chances para o sucesso estavam além das capacidades da Santa Sé num contexto histórico cuja influencia era mínima ou nula. A ideologia e a prática nazista, a din?mica de uma guerra total, a inexpressab política do Vaticano nos par?metros militares, a defasagem entre a qualidade de mão de obra disponível (refugiados indesejáveis) e a procura de bons emigrantes (agricultores e técnicos) na maioria dos países latinoamericanos foram sómente alguns dos fatôres mais importantes que contribuíram a margin- alidade do Vaticano no período da guerra. Interessante notar que a documentação oficial do Vaticano, originalmente publicada para provar o quanto foi feito no ?mbito humanitário, pôs a descoberto os aspectos negativos dos eclesiásticos envolvidos. Os documentos citados nêste trabalho demonstram a facilidade pela qual Maglione e demais membros da cúpula do Vaticano aceitaram a apatia e a aversão de vários govêrnos pelo destino dos refugiados. Derrotismo, negligencia e indiferença no trato dos assuntos analisados particularizaram atitudes dos membros da Santa Sé e de certos nuncios com raras exceçoés. Basta dizer que o Papa e o Estado do Vaticano jamais tomaram iniciativas humanitárias, o envolvi- mento da Santa Sé foi um produto de iniciativas tomadas por personalidades ou instituiçoes católicas. O Vaticano preocupado por seu prestígio criou ilusoes infundadas a respeito de suas capacidades. O Vaticano poderia ter feito mais do que fez independente dos resultados os quais eram função da complexa realidade política e militar criada pela eclosab da guerra. NOTAS {fn id=1 title= HOCHHUTH, Rolf, O Vigario, trad. e intr. de João Alves dos Santos, São Paulo, Edit. Grijalbo, 1968. } {fn id=2 title= Actes et Documents du Saint Si6ge Relatifs a la Seconde Guerre Mondiale, editados por Pierre Blet, Robert A. Graham, Angelo Martini, Burkhart Schneider, Cittá del Vaticano, Lib. Edit. Vaticana, 1972-1976 (daqui em diante citaremos pela sigla ADSS). } {fn id=3 title= Veja CONWAY, John S., "Records and Documents of the Holy See Relating to the Second World War", in Yad Vashem Studies XV, Jerusalem, 1983 pp. 327-347, partidario da linha moderada, sugeriu reavaliar a atuaçáo de Pio XII a luz da complexa realidade histórica ao passo que MORLEY, John F., Vatican Diplomacy and the Jews During the Holocaust 1939- 1943, New York, Ktav Pub., 1980, foi categórico e crítico em relação ao Sumo Pontífice e seus embaixadores. } {fn id=4 title= Não era algo novo o fato do Vaticano relacionar-se aos judeus batisados como vítimas do nazismo, êste antecedente havia sido estabelecido nos dias do Papa Pio XI; veja a respeito LEWY, Guenter, "The Role of the Papacy in the Jewish Quesdon", in The Papacy and Totalitarianism Between the Two World Wars, ed. by Charles F. Delzell, New York, 1974, p. 64. } {fn id=5 title= Em 30/11/38 Pacelli, secretario de Estado do Vaticano e aquêle que seria eleito o Papa Pio XII, enviou uma circular-telegrama a 18 de seus representantes, dos quais 7 localizados em países latinoamericanos (Argentina, Chile, Peru, Bolívia, Colombia, Cuba e Costa Rica) em favor dos judeus convertidos, e em 9/1/39 recomendou a criação de comitês católicos de assistencia a esta gente. Veja _4DSS, vol. VI, pp. 49-50. } {fn id=6 title= O background dêste assunto foi descrito e analisado na tese de mestrado do autor destas linhas. Veja o item b do cap.I1 "Os primeiros contatos entre o Vaticano e o govêrno brasileiro", in O Brasil e a Questab dos Refugiados Judeus Durante a Segunda Guerra Mundial, Universidade Hebraica de Jerusalem, 1989. } {fn id=7 title= Orgaõ instituído pelas leis imigratórias de 1938, subjugado ao presidente da Republica com a finalidade de orientar, ordenar e instituir a política imigratória brasileira. } {fn id=8 title= Nuncio Aluisio Masella a Maglione, Rio de Janeiro, 31/7/1939, in ADSS, vol. VI, p. 118. } {fn id=9 title= Grosser ao nuncio Orsenigo, Hamburgo, 1;9/1939, in ADSS, vol. VI, pp. 133-134. } {fn id=10 title= Concordo com John Morley segundo o qual este esforço foi considerado pelo Vaticano como o projeto de auxílio mais importante nos dois primeiros anos da guerra. Veja Morley acima citado p. 22. } {fn id=11 title= Nuncio Masella a Maglione, Rio de Janeiro, 28/6/1939, in ADSS, vol. VI, pp. 99-100; Berning a Maglione. Osnabruck, 20/7/1939, in ADSS, vol. VI, pp. 108-110. } {fn id=12 title= O Brasil insistia que os que viessem por intermedio da concessão ao Papa fossem de religião católica. Segundo as palavras de Hildebrando Accioly, embaixador em Roma, "O Brasil não faz questão da raça só da religião", in .4DSS, vol. VI, p. 252. } {fn id=13 title= Embaixada do Brasil (Roma) a Secretaria de Estado do Vaticano Roma, 4, 3/ 1940,in ADSS, vol. VI, pp. 253-254; Accioly a Maglione, Roma, 30/9/1940, in ADSS, vol. VI, p. 423. } {fn id=14 title= Bernardini a Maglione, 6/6/1939, in ADSS, vol. VI, pp.95-96. } {fn id=15 title= Taffi a Maglione, 5¡6/1939, in ADSS, vol. VI, pp. 92-94. } {fn id=16 title= O nuncio escreveu que "A invasão no Chile de um grande número de judeus e católicos vão arianos produziram um grande problema. Entrando com a escusa de dedicarem-se a agricultura revertem-se ao comércio nos grandes e pequenos centros apoderando-se do comercio as custas dos comerciantes já existentes". Laghi a Maglione. Santiago, 18/1/1940, in ADSS, vol. VI, p. 222. } {fn id=17 title= Dom Odon de Wurttemberg a Maglione, New-York, 14/11/1940, in ADSS, vol. VI, pp. 469- 470. } {fn id=18 title= Veja acima ref. 6, pp. 80-109; e no livro de TUCCI CARNEIRO, Maria Luiza, O Anti- semitismo na era Vargas (1930- 1945), São Paulo, Brasiliense, 1988, pp. 327-333. } {fn id=19 title= ADSS, vol. VI, pp. 500-501; 524-525. } {fn id=20 title= Menningen, secretario geral da sociedade São Raphael, a Maglione, Roma, 2/12/1940, in ADSS, vol. VI, pp. 500-501. } {fn id=21 title= Notas da Secretaria de Estado, Roma. 2,;1/1941, in ADSS, vol. VI, pp. 525-526. } {fn id=22 title= VNI, Haim, Judios en América. Madrid, Ed. Mapfre, 1992, pp. 275-276. } {fn id=23 title= Vaticano, 18/2/1941, in ADSS, vol. IV, pp. 389-398. } {fn id=24 title= Grober, arcebispo de Fribourg, ao Papa Pio XII, in ADSS, vol. VIII, pp. 238-239. } {fn id=25 title= ADSS, vol. VIII, p. 304, nota de rodapé n. 4. } {fn id=26 title= Nuncio de Lima Cento a Maglione, Lima, 13/12/1941, in ADSS, vol. VIII, pp. 381-382. } {fn id=27 title= Veja AVNI, Haim, "Latin America and the Jewish Refugees: Two Encounters, 1935 and 1938", in The Jewish Presence in Latin America, ed. by J. Elkin; G.Merx, Boston, 1987, pp. 45-68. } {fn id=28 title= LAQUEUR, Walter, O Terrivel Segredo, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1980. WYMAN, David S., Abandonment of the Jews, New York, Pantheon Books, 1984, pp. 19-61. } {fn id=29 title= Telegrama de Harold Tittmann ao Dep. de Estado (30/7/1942), Foreign Relations of the United States 1942, 111, p.772-3, pub]. por FRIEDLANDER, Saul, Pio XII e a Alemanha Nazi-Documentos, Lisboa, Livraria Morais, 1967, pp. 112-113. } {fn id=30 title= Idem., p. 116. } {fn id=31 title= Valeri a Maglione, Vichy, 7/8/1942, in ADSS, vol. VIII, p. 615. Citado por Morley, op. cit., pp. 55-56. } {fn id=32 title= Telegramas com notícias sôbre o assassinato de milhares e planos de exterminar todos os judeus foram enviados a tôdas as capitais dos países latinoamericanos em 1/12/1942. Veja, por ex., Nuestro Diario (Guatemala) de 2/3/e 4/12/1942. } {fn id=33 title= ADSS, vol. VIII, p. 756, nota de rodapé n. 1. } {fn id=34 title= Ibid-, p. 757. } {fn id=35 title= Veja CONWAY, op. cit. } {fn id=36 title= FRIEDLANDER, op. cit., pp. 107-108, e comentarios a respeito em MORLEY, pp. 56-57. } {fn id=37 title= ADSS, vol. VIII, p. 627, nota de rodapé n. 4. } {fn id=38 title= ADSS, vol. IX, p. 498. } {fn id=39 title= Montevideo, 14/10/1943, in ADSS, vol. IX, p. 502. } {fn id=40 title= La Paz, 18/11/1943, in ADSS, vol. IX, p. 567. } {fn id=41 title= AVNI, Haim, "Patterns of Jewish Leadership in Latin America During the Holocaust", in Jewish Leadership During Nazi Era, ed. by Randolph Braham, City University of N.Y., 1985, pp. 87-125. } {fn id=42 title= Nathan Eck foi o primeiro a investigar esta questão, "The Rescue of Jews with the Aid of Passports and Citizenship Papers of Latin American States", in Yad Vashem Studies, vol. I, 1957. David Wyman e Bernard Wasserstein escreveram a respeito sob a perspectiva das potencias aliadas enquanto Haim Avni esclareceu-nos sobre o potencial de salvação sob o prisma dos paises latinoamericanos: "The War and the Possibilities of Rescue", in The Shoah and the War, Asher Cohen, Yehoyakim Cochavi, Yoav Gelber, eds.; Peter Lang, N.Y., 1992, pp. 373-392. } {fn id=43 title= PORAT, Dina, An Entangled Leadership - The Yishuv & the Holocaust, 1942-1945 (versão hebraica), Tel-Aviv, Am Oved, pp. 281-284; WASSERSTEIN, Bernard, Britain and the Jews of Europe 1939-1945 (versão hebraica), Tel-Aviv, Am Oved, pp. 185- 191. } {fn id=44 title= A. Silberschein descreveu ao nuncio Bernardini, sôbre a demissão do consul peruano J.M. Barreto, in Yad Vashem Archives (YVA), M 20/69, sôbre o consul paraguayo, in M 20\20 e nos livros acima citados. } {fn id=45 title= Veja AVNI, Haim, op. cit., pp. 384-388; ADSS, vol. X, p. 246. } {fn id=46 title= Carta de A. Silberschain, Genove, 7/1/1944, in YVA, M 20\20. Haviam judeus com passaportes latincamericanos nos campos de Vittel, Bergen Belzen, Tittmonig, Liebenau e Bolsenberg. } {fn id=47 title= ADSS, vol. IX, p. 638, nota de rodapé. Veja tb. vol. X, pp. 232-233. } {fn id=48 title= WASSERSTEIN, op. cit. e WYMAN, David, The Abandonment of the Jews, N.Y., Pantheon Books, 1984 pp. 277-278. } {fn id=49 title= ADSS, vol. 1X, pp. 637-638; vol.X, pp. 238, 243. } {fn id=50 title= ADSS, vol. X, pp. 238; 252. }



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